Cão salva vidas

Bombeiros de São Paulo utilizam cães em salvamento e busca de vítimas soterradas

Sensibilidade auditiva 16 vezes superior a do homem garante o sucesso nas operações

Por Sandra Cunha

O emprego de cães no auxílio dos trabalhos de resgate de vítimas de soterramento já é prática comum em países como Japão, Estados Unidos e nações européias. No México, por exemplo, foi de grande eficácia na retirada de vítimas sob os escombros do terremoto ocorrido na década de 80. Os animais foram imprescindíveis no salvamento de muitas vidas naquela ocasião.

Hoje, para detectar se há alguém com vida sob um desmoronamento de terra ou sob um amontoado de concreto, os bombeiros brasileiros dispõem de recursos tais como o de ouvir eventuais ruídos, naturalmente, ou de tentar falar com os sobreviventes, além dos equipamentos denominados de localizadores de vítimas. São sensores acústicos que mapeiam a área do sinistro e são capazes de identificar ruídos (gemidos, fala e até batimentos cardíacos). Existem dois tipos de localizadores, um de origem israelense e outro alemão. Este último tem a vantagem de permitir a comunicação chamada duplex, ou seja, além de localizar a vítima, possibilita que ela se comunique por meio de um microfone e um receptor de áudio acoplado ao aparelho, que é guiado até o mais próximo possível da pessoa e muitas vezes orienta a melhor forma de procedimento em seu salvamento.

Com o emprego dos cães, esse trabalho foi aprimorado. A grande valia é que eles têm uma capacidade muito superior a do homem no que se refere ao olfato e à audição. Apresentam uma sensibilidade auditiva 16 vezes maior que a dos seres humanos e, enquanto o homem possui 5 milhões de células na cavidade nasal, os cães são dotados de 250 milhões. Por isso, facilmente identificam suor, odor de sangue, adrenalina, etc.

As raças de cães que apresentam maior capacidade de faro são Labrador ou Springuer Spaniel, cuja composição genética facilita a adap-tação a qualquer tipo de treinamento. Além de ser um cão adaptável a qualquer terreno e ter um histórico de caçador.

A exploração desses atributos não é recente. Durante a Segunda Grande Guerra, o exército alemão valeu-se de cães para a vigilância de bases nazistas. Eles alertavam os sentinelas sobre qualquer aproximação de tropas inimigas.

O 1º Grupamento de Bombeiros de São Paulo, localizado no bairro do Ipiranga, vem obtendo excelentes resultados nas ocorrências de busca e salvamento, por meio do Ecos (Emprego de Cães em Operações de Salvamento), que, além de garantir economia de tempo durante as ocorrências, pode salvar muitas vidas.O Ecos conta, inclusive, com viatura especial para transportar os cães do batalhão até o local da ocorrência. “É impressionante a disposição dos cães para o trabalho. Basta encostarmos a viatura em frente do canil aberto que eles ficam eufóricos. Logo pulam para o seu interior e esperam a partida do veículo”, complementa o cabo Lauro Francisco Silva, oficial responsável pelo canil.

A utilização dos cães vai muito além do que se previa a princípio. “O canil nos apóia em ocorrências de salvamento de diversas naturezas, principalmente quando não temos possibilidade de visualizar a vítima e todos os recursos já foram esgotados. Além da indicação de locais em que haja vítimas soterradas, os nossos cães são treinados para atuar em casos de ocultação de cadáver e em outros crimes.”

Para se ter noção da importância da ampliação do emprego de cães nas buscas e salvamentos, só no Estado de São Paulo ocorrem em média, de acordo com matéria publicada no site da Radiobrás, www.radiobras.gov.br, cerca de mil soterramentos, sendo 300 casos na capital paulista. A maioria dos acidentes se refere a desabamentos na área da construção civil. São ocorrências que vão desde deslizes por infiltrações em período de chuva e por acomodações de solo, até desmoronamento em grandes edificações, por problemas nas estruturas ou no planejamento da obra.

Esperto, curioso e brincalhão, o Labrador é o cão ideal
A unidade Ipiranga conta atualmente com nove exemplares, todos da raça Labrador. Destes, cinco estão totalmente preparados e o restante, em fase de adaptação. “É preciso lembrar que não é qualquer Labrador que está apto a fazer parte da corporação. O exemplar tem de apresentar características específicas, como iniciativa e coragem, por exemplo”, acrescenta cabo Lauro.

O oficial enfatiza que a raça é conhecida por ser brincalhona, o que facilita muito o treinamento. “Nossa base de adestramento é a recompensa e essa ação se dá por meio de brincadeiras. Logo que os filhotes nascem, escolhemos os que se mostram mais espertos e curiosos. Após 60 dias, damos início aos treinamentos.”
As ninhadas podem ser provenientes de doações ou advindas do Canil Central do Corpo de Bombeiros de São Paulo, localizado na Serra da Cantareira, zona norte da capital paulista. Segundo o cabo Lauro da Silva, metade do efetivo vem de doações e o restante, do canil.

As fêmeas dominam o canil da corporação
As fêmeas são a maioria no canil do Corpo de Bombeiros. Isso porque, comprovadamente, as cadelas possuem maior poder de concentração, responsabilidade e não têm o instinto de demarcar territórios, a exemplo dos machos, que facilmente se dispersam com esse intuito ou em razão de ficar atraídos por cadelas no cio.
“O exemplar macho não é inferior, mas os resultados obtidos com as fêmeas são melhores. Se em um local de ocorrência tiver uma cadela no cio e estivermos operando com cães machos, o trabalho certamente será comprometido. As fêmeas, por exemplo, só param para urinar quando realmente estão com vontade, diferentemente dos machos, que urinam pelo simples fato de outro cão ter urinado ali também”, complementa o cabo Lauro.

O treinamento é árduo, porém prazeroso
O treinamento básico, assim como a catalogação e o atendimento veterinário, é efetuado no Canil Central da Polícia Militar, onde o cão aprende a utilizar seu faro para a detecção de explosivos e drogas. Contudo, é no batalhão que ele recebe os comandos para atuar em uma ocorrência de resgate de vítimas em escombros.
É um equívoco imaginar que os cães passam por exercícios rígidos e dolorosos. “Para os cães, o treinamento não passa de uma atividade lúdica, em que ele procura um brinquedo e espera pelo reconhecimento do comandante, por meio de um simples agrado. Assim, os cães são motivados a utilizar o seu instinto natural de faro, sempre por intermédio de associações. É importante ressaltar que, quanto menor a dependência do animal com seu condutor, melhores serão os resultados”, informa o cabo Lauro.

O tempo de treinamento de um exemplar, desde o processo seletivo, dá-se em média no período de um ano e meio e passa por três estágios. No primeiro, o cão é associado ao brinquedo e em seguida o odor é associado ao brinquedo. No segundo estágio, o cão passa a procurar o odor em vez do brinquedo e, por último, o odor é associado à recompensa.

O brinquedo em questão trata-se de um objeto específico para esse tipo de adestramento. É produzido com material resistente e formato especial para passagem de ar e espaço para acondicionar aromas. Para que reconheça odores inerentes ao ser humano, os cães são treinados com substâncias que as pessoas liberam durante uma ocorrência, como suor e adrenalina.
No Canil do Corpo de Bombeiros do Ipiranga, três equipes se revezam no treinamento dos cães. “Os exercícios são contínuos. Simulamos terrenos idênticos a cenários de escombros e desabamentos para torná-los aptos a desempenhar suas funções também com barulho intenso, poeira, lama, buracos, fendas, água, enfim, todas as situações possíveis são testadas”, complementa cabo Lauro.

Ampliando as possibilidades de atuação dos cães
Os Cães de Apoio a Ocorrências de Salvamento, como são denominados pela corporação, são considerados materiais de carga, de propriedade do Estado e ferramentas do Corpo de Bombeiros, o que não impede a relação de afetividade existente entre os oficiais e os animais.

De acordo com o cabo Lauro, o cão ainda não é utilizado em ocorrências de incêndio, propriamente ditas, em razão das altas temperaturas. No entanto, é empregado na busca de vítimas após o rescaldo. “O nosso canil é relativamente recente e os nossos cães foram treinados inicialmente para escombros e soterramentos, acidentes comuns em casos de incêndio.”

Ainda segundo o oficial, o comando da corporação está se estruturando também para efetuar o treinamento dos cães para casos de afogamento e para o esclarecimento de possíveis causas de incêndios. “Não temos ainda no País cães preparados para essas ocorrências”, lamenta.

A maior vantagem da utilização de cães pelo Corpo de Bombeiros, de acordo com o cabo Lauro, é a resposta ágil que eles oferecem: “Em qualquer abalo de estrutura, como desabamentos, notamos que a vítima muitas vezes está por perto, todavia, longe do campo de visão do bombeiro. O faro do cão, até por se tratar do sentido que garante a sua sobrevivência, é capaz de localizá-la rapidamente, superando os aparelhos que utilizamos. Por isso acreditamos que eles (os cães) podem ser extremamente úteis também em outras ocorrências”.

O papel dos cães no resgate às vítimas do atentado ao World Trade Center
Em um posto médico iluminado por holofotes, quatro médicos preparam um dos trabalhadores de emergência para o longo dia que terão pela frente. Envolvem suas pernas em fitas adesivas e encaixam botas novas. Oferecem-lhe comida, verificam seus olhos, porque a fumaça e a poeira podem embaçá-los e queimá-los nas próximas horas. Mas, principalmente, beijam seu focinho, esfregam sua barriga e dizem coisas como “Bom trabalho, Porkchop”.
Por uma semana, Porkchop, um Australian Shepherd de 1 ano de idade, tem feito buscas no ferro retorcido que um dia foi o World Trade Center, em Nova York. No seu tempo livre, come formigas e assiste ao canal TV Animal Planet. Nos últimos dias, buscou por sinais de vida ou morte em meio às ruínas. Ele não encontrou sobreviventes.
Mas Porkchop descobriu tantos restos humanos que seu tratador, Erick Robertson, disse que perdeu a conta, no que acredita ter sido o maior destacamento de cães da história, aproximadamente 350 cães especializados estiveram no World Trade Center. Porkchop, até a conclusão da primeira etapa dos trabalhos, havia recolhido restos humanos junto a cadeiras e bolsas que ajudaram a identificar quatro pessoas. “A nossa missão principal é tirar as pessoas dali”, informou na ocasião Michael Kidd, um membro do Corpo de Bombeiros de Miami. Seu pastor alemão Mizu já esteve em missões até mesmo na Turquia. “O que mais importa aqui é dar às pessoas a certeza de que tudo acabou.”

Até pessoas mais afeitas a gatos admiram o trabalho dos cães heróis. Com nomes como Dutch, Tuff, Bigfoot, Sally, Max e Cowboy, eles trabalharam em turnos de 12 horas, cavando túneis e penetrando destroços instáveis para caçar o menor resquício de vivos ou mortos. “Se vão ser achadas pessoas vivas, serão os cães a encontrá-las”, afirmou Barry Kellog, que gerenciou a equipe de Assistência Médica Veterinária, setor do serviço público de saúde dos Estados Unidos responsável pelos animais que atuam em desastres.

No momento em que os esforços estavam mais concentrados na recu-peração do que em resgate, os “cães de cadáveres”, assim denominados e que foram enviados até da Europa, tiveram um papel fundamental no fornecimento de respostas para milhares de famílias dos desaparecidos. Esses cães têm anos de treinamento com seus tratadores, que geralmente são membros do Corpo de Bombeiros ou paramédicos. Eles precisam ser impassíveis na frente de pessoas gritando e de equipamentos de escavação, além de se apresentarem fisicamente capazes de se mover através de pequenos espaços e até mesmo de subir em escadas de bombeiros.

Apesar de muitos cães policiais terem visitado o local, os cães de resgate tendem a ter um treinamento mais intensivo. Esses animais precisam aprender truques que são opostos a seus instintos. Quando um cão corre, ele enterra suas unhas no chão. Quando uma superfície se move, o cão tende a saltar. Para tanto, eles aprendem a caminhar com as patas abertas, para não mover o chão abaixo deles. Por isso, muitos deles que trabalharam nos escombros do World Trade Center não utilizaram as botas especiais disponibilizadas.

Segundo Shirley Hammond, uma especialista em cães de resgate de 67 anos, de Palo Alto, na Califórnia, os cães passam por treinamentos específicos para situações de recuperação e resgate. “Eles aprendem a rastejar, baixando seu centro de gravidade, quando os destroços se movem abaixo deles.”Mas como se ensina um cão a achar restos humanos? Existem produtos macabros, como os “corpos falsos”, que imitam o cheiro de carne decomposta. Outros treinadores usam corpos e placentas doados pela ciência. Com um olfato várias vezes mais apurado que o humano, os cães podem sentir cheiros através do concreto dos destroços.

No World Trade Center, os cães trabalharam em times e setores diferentes dos escombros. Engenheiros estruturais investigavam as áreas para determinar se era seguro explorá-las. Especialistas em materiais perigosos, conhecidos como “hazmat”, procuravam por restos de combustível de avião, diesel freon e toner, para mencionar alguns. Só depois vieram os cães. Quando encontravam algo, alguns latiam, outros deitavam, e então especialistas verificavam o que fora encontrado.

Atendimento veterinário no local do desastre
Para cuidar dos cortes, dos danos em razão da exposição a produtos químicos e da desidratação, o serviço público de saúde nova-iorquino enviou o Serviço de Assistência Médica Veterinária, ou VMAT.
Trabalhando em turnos de 12 horas, homens, mulheres e médicos veterinários voluntários formaram uma equipe que se instalou no meio da West Street, algumas quadras ao norte do World Trade Center. Uma tenda de 20 metros mantinha uma mesa com seringas, aparelhos para limpeza de ouvidos e olhos, gavetas com gazes e bandagens, além de bolsas de soluções intravenosas penduradas em suportes, protetores para patas e diver-
sos brinquedos, ossos e biscoitos, quase o suficiente para suprir um pet shop.

Em uma das noites de trabalho nos escombros, quando os veterinários mudaram de turno, nenhum cão apareceu por horas. Então Cara, um Beauceron de 2 anos, chegou. Ela havia acabado de penetrar em um espaço de poucos centímetros com uma câmera amarrada a ela. O seu treinador pediu que aparassem suas unhas e limpassem seus olhos. Os veterinários perceberam, então, que ela estava ligeiramente desidratada e recomendaram a ingestão de bastante líquido, assim que terminasse seu turno. Ela retornou aos destroços dez minutos depois. Nas próximas horas, apenas voluntários empurrando carrinhos passavam por ali, oferecendo comida, bandeiras e curativos para os pés. Caminhões de carga com luzes estroboscópicas se encaminhavam para o local. Alguns minutos depois das 2 horas da manhã daquele sábado, uma ambulância com uma escolta policial enorme, inclusive motocicletas, se encaminhou para o norte com os restos do que um dia foi um policial. Duas outras caravanas similares passariam ainda pelo local.

Às 5 da manhã, o próximo paciente chegou, um Pastor Alemão que trabalhava como cão de patrulha para o departamento de Polícia de Nova York. Dwyer, com as orelhas baixas, estava com diarréia e assustado, já que acabara de ser mordido por outro cão. Mitch Biederman, um médico voluntário, diagnosticou estresse e outro veterinário lhe deu um remédio.

Às 6 horas houve outra mudança de turno e os cães começaram a chegar. Primeiro foi Kinsey, uma fêmea preta de Labrador que sacudia mais o corpo do que a cauda. O veterinário mediu sua temperatura, limpou-a e ofertou-lhe um brinquedo, que ela agarrou prontamente, enquanto o seu tratador queixava-se do forte cheiro de cadáver do local.

Cholo, um Pastor Alemão, foi o próximo. Como a maioria dos cães especializados, ele pertence a uma equipe de resgate do Texas. No entanto, o animal busca por sobreviventes, não por cadáveres. Ele não encontrou ninguém durante o seu turno, informou Bert Whiters, o chefe de buscas.
Para evitar que os cães fiquem tristes depois de um dia de trabalho sem resultados, alguns tratadores se escondem e deixam que os cães os encontrem. No entanto, a única coisa que preocupava Cholo era o banho que estava prestes a tomar, com um regador e um balde pendurados em um tripé. Pelo seu olhar, o banho parecia uma ameaça. O último a aparecer foi Thunder, um Golden Retriever de 6 anos que é parte da equipe de resgate de Washington. Thunder também foi examinado. “Ele está tão estressado que não pode mais ir aos destroços”, disse seu tratador, Kent Olson. Depois que um banho o livrou da poeira e da graxa impregnada em sua cabeça, Thunder rumou para a área de descanso, enquanto Porkchop, com suas botas laranja, voltava para os destroços. Um veterinário acariciou então sua cabeça e disse: “Que cães maravilhosos”.

Pouquíssimos sobreviventes foram encontrados e os que foram devem os méritos aos cães. Assim como muitas famílias tiveram ao menos partes de seus parentes para dedicar-lhes um funeral digno. Essa é mais uma prova de que o cão é realmente o melhor amigo do homem, esteja ele vivo ou morto.